(Artigo publicado na Revista Catarinense de Solução de Conflitos – ANO V – número 5 – Agosto de 2017 – pág 15)

Em 2006 Dr. Sami Storch estava em exercício na comarca de Itabuna na Bahia e foi o primeiro juiz brasileiro a utilizar as constelações para resolução de conflitos em processos judiciários. Mais tarde em 2015 a convite de Bert Hellinger, o próprio criador das constelações, o juiz foi apresentar os resultados de seu trabalho na Alemanha para um público e mais de 500 pessoas de vários países. Sua apresentação mostrou os surpreendentes índices de acordo nos casos em que se aplicavam as constelações. Atualmente 11 estados brasileiros utilizam com sucesso as mesmas técnicas da constelação familiar facilitando as resoluções em seus tribunais.

Desde a década de 1970 o filósofo alemão Bert Hellinger aplica esta terapia como forma de ajudar pessoas a resolverem suas dificuldades nos relacionamentos. Hellinger descobriu que ao olhar para situações de conflito de forma sistêmica, ou seja, ampla e interligada com todos que pertencem ao contexto, observa-se uma nova compreensão dos acontecimentos. À frente da Escola Hellinger Sciencia o casal Bert e Sophie aprofunda as técnicas de constelações apresentando-as em vários países no mundo. Certificando-se de que as sensações que surgem a partir de um “campo morfológico”, amplamente divulgado na década de 1990 e comprovado cientificamente, as constelações hoje são utilizadas na área terapêutica bem como na saúde, pedagogia e no judiciário. Rupert Sheldrake é um dos cientistas divulgadores deste campo, e segundo as descobertas da ciência nele estão contidas todas as informações necessárias a cada caso. Pela constelação o campo fica acessível mesmo que em alguns casos as informações nem eram do próprio conhecimento dos envolvidos. Pela constelação é possível olhar para situações familiares gerando compreensão de tudo que aconteceu no sistema familiar. Este novo olhar permite que a pessoa assuma uma outra forma de ver possíveis soluções.

Como esta técnica pode ser útil hoje para o judiciário? Advogados, defensores, juízes e promotores observam que a constelação traz benefícios ao proporcionar que as partes envolvidas olhem para a situação de forma sistêmica, observando o que estava fora de ordem, o que estava excluído ou fora de equilíbrio, aceitando e assumindo suas responsabilidades. Não é preciso que o profissional aconselhe ou utilize qualquer forma didática de ajuda. A própria pessoa tem condições de olhar para a solução, resultando numa profunda mudança que independe de sua condição social ou cultural. Por exemplo, num processo de divórcio e guarda dos filhos, a constelação pode mostrar que um dos cônjuges, por mágoa ou ressentimento, exclui o parceiro criando uma imagem de que este “não é bom para os filhos”. Com isto as crianças sofrem, pois não há como separar os pais no filho, já que este é resultado de ambos, e o filho não quer “trair” a nenhum dos pais. Pela constelação, os pais (ou mesmo quando só um dos parceiros comparece) percebem o que os filhos estão sentindo, reconhecem que ambos deram a vida a seus filhos e que as crianças não são propriedade de nenhum deles. Os pais estão a serviço do desenvolvimento de seus filhos e ambos fazem parte. E quando estes pais conseguem dizer aos seus filhos “nós estamos separados, mas em vocês estaremos sempre juntos” de uma forma sincera, traz alívio para as crianças que se sentem livres para amar a ambos. A compreensão da situação pela aplicação das constelações muitas vezes mostra aos pais que o melhor lugar para as crianças é junto do parceiro que mais respeita o outro. Os profissionais que trabalham com estas técnicas dos Hellinger observam que depois da constelação o cliente muda a sua forma de ver a situação, abandona as ideias de vingança ou de se colocar como vítima, assume suas responsabilidades e aceita as limitações de cada um.

O que surpreende aos magistrados que utilizam as técnicas das constelações é que, mesmo quando apenas uma das partes comparece à constelação, os resultados de conciliação acontecem em mais de 90% dos casos. Estes índices positivos incentivaram em 2016 a criação do primeiro curso de Pós-Graduação em Direito Sistêmico oferecido pela faculdade brasileira INNOVARE em parceria com a Universidade CUDEC do México e ministrado aqui no Brasil por docentes alemães da Hellinger Sciencia. Profissionais da área jurídica e magistrados estão se preparando e comprovam os bons resultados com este trabalho junto a famílias, adolescentes infratores, situações de abandono de crianças e adoções, além da área criminal. É possível também que os advogados que se utilizam das técnicas de constelações, observando o sistema familiar do cliente com um novo olhar, produzam muito mais acordos benéficos a ambas as partes se tornando um referencial na área.

Reconhecido pelos resultados obtidos em seu trabalho com as constelações, o Dr. Sami Storch foi homenageado em 2015 com o “Prêmio Conciliar é Legal” do Conselho Nacional de Justiça. Atualmente a prática está aprovada conforme Resolução CNJ nº 125/2010 tornando mais fácil a utilização das constelações familiares pelos profissionais da área jurídica. Para acompanhar o trabalho desenvolvido pelo Dr. Sami Storch e as notícias sobre constelações no judiciário brasileiro: www.direitosistemico.wordpress.com

 

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